Dor torácica é um dos motivos mais frequentes de atendimento em pronto-socorros e um dos cenários que mais exige decisão rápida e estruturada do plantonista. O HEART Score é uma ferramenta de estratificação de risco desenvolvida para apoiar essa avaliação, permitindo estimar a probabilidade de eventos cardíacos adversos maiores (MACE) em pacientes com suspeita de síndrome coronariana aguda (SCA).
O escore é composto por cinco critérios clínicos e laboratoriais — History, ECG, Age, Risk factors e Troponin — e gera uma pontuação de 0 a 10. Neste guia, você vai entender como pontuar cada componente, como interpretar os resultados e, principalmente, como usar esse escore de forma segura no plantão, sem cometer os erros mais comuns.
Para ampliar a avaliação clínica com outros escores de emergência, veja também: qSOFA e SOFA: Como Identificar Sepse na Emergência com Escores Clínicos.
Principais conclusões
- •O HEART Score estratifica risco de MACE com pontuação de 0 a 10 baseada em cinco critérios clínico-laboratoriais.
- •Na validação original, MACE em seis semanas ocorreu em 1,7% dos pacientes com HEART 0–3, 16,6% com HEART 4–6 e 50,1% com HEART 7–10.
- •Um HEART Score baixo não autoriza alta automática: a decisão exige integração com ECG, troponina, evolução clínica e protocolo institucional.
- •O HEART Score é uma ferramenta de risco; o HEART Pathway é um protocolo mais amplo que inclui troponina seriada.
- •O escore não avalia causas não coronarianas de dor torácica, como dissecção de aorta ou tromboembolismo pulmonar.
O que é o HEART Score?
O HEART Score é uma ferramenta de estratificação de risco para pacientes atendidos na emergência com dor torácica e suspeita de síndrome coronariana aguda. Ele não é um teste diagnóstico: não confirma nem exclui infarto por si só.
A sigla HEART corresponde aos cinco critérios avaliados:
- ✓H — History: história clínica;
- ✓E — ECG: eletrocardiograma;
- ✓A — Age: idade;
- ✓R — Risk factors: fatores de risco cardiovasculares;
- ✓T — Troponin: troponina.
Cada componente recebe 0, 1 ou 2 pontos, resultando em pontuação total de 0 a 10. O objetivo é estimar o risco de eventos cardíacos adversos maiores nas semanas seguintes e orientar a conduta de forma mais estruturada, sem substituir o julgamento clínico.
Como Calcular o HEART Score: Tabela Completa
Tabela do HEART Score
| Critério | 0 pontos | 1 ponto | 2 pontos |
|---|---|---|---|
| História | Pouco suspeita | Moderadamente suspeita | Altamente suspeita |
| ECG | Normal | Alterações inespecíficas de repolarização | Depressão significativa do ST |
| Idade | < 45 anos | 45–64 anos | ≥ 65 anos |
| Fatores de risco | Nenhum | 1–2 fatores | ≥ 3 fatores ou doença aterosclerótica conhecida |
| Troponina | Dentro do limite normal | 1–3× o limite normal | > 3× o limite normal |
A seguir, entenda como pontuar cada critério na prática.
História clínica
A história clínica é o componente mais subjetivo do escore. A pontuação não segue uma regra mecânica (“dor em aperto = 2 pontos”), mas depende do quanto o conjunto da apresentação sugere SCA.
A avaliação deve integrar: características e qualidade da dor, localização e irradiação, fatores desencadeantes e de alívio, sintomas associados como sudorese e náusea, antecedentes cardíacos e contexto clínico geral. É essa integração que define se a história é pouco, moderadamente ou altamente suspeita.
A subjetividade inerente a esse critério é uma das principais limitações do HEART Score e deve ser reconhecida ao aplicá-lo.
ECG
A pontuação do ECG segue a classificação clássica: 0 para ECG normal, 1 para alterações inespecíficas de repolarização e 2 para depressão significativa do segmento ST.
Um ponto importante: o HEART Score não deve ser usado para minimizar um ECG claramente compatível com SCA de alto risco. Pacientes com achados que já indiquem abordagem urgente não devem ter a conduta adiada para o cálculo de um escore. O ECG continua sendo um dos exames iniciais fundamentais na avaliação da dor torácica aguda — o escore o organiza, não o substitui.
Idade
Critério objetivo: menos de 45 anos recebe 0 ponto; entre 45 e 64 anos, 1 ponto; 65 anos ou mais, 2 pontos. Sem margem para interpretação.
Fatores de risco
Os fatores cardiovasculares considerados no HEART incluem: hipertensão, diabetes, dislipidemia, tabagismo, obesidade e história familiar de doença arterial coronariana. Doença aterosclerótica previamente estabelecida — coronariana, cerebrovascular ou arterial periférica — tem peso relevante na classificação e pode elevar diretamente o escore para 2 pontos nesse critério.
Não adicione fatores de risco além dos definidos pelo escore sem deixar claro que se trata de uma adaptação: isso altera a validade da ferramenta.
Troponina
A pontuação original do HEART usa a troponina em relação ao limite superior de referência do ensaio local: dentro do limite normal (0 ponto), 1 a 3 vezes o limite (1 ponto) e acima de 3 vezes (2 pontos).
Com a adoção ampla de troponinas cardíacas de alta sensibilidade (hs-cTn), a interpretação ficou mais sofisticada. Os cutoffs dependem do ensaio utilizado, a troponina não deve ser lida apenas como “positiva ou negativa” e a variação seriada pode ser tão importante quanto o valor isolado. Algoritmos contemporâneos de rule-out e rule-in utilizam protocolos específicos com medidas em 0/1h ou 0/2h, dependendo do ensaio e do protocolo institucional.
Por isso, não existe um valor absoluto universal de troponina que funcione para todos os contextos.
Atenção à interpretação da troponina
A pontuação do critério T no HEART Score depende do limite de referência do ensaio utilizado na sua instituição. Troponina de alta sensibilidade com resultado “positivo” não equivale automaticamente a 2 pontos: a relação com o limite superior de referência e a variação seriada são fundamentais para a interpretação correta.
Como Interpretar o Resultado do HEART Score?
A classificação clássica divide os pacientes em três faixas de risco:
- ✓0–3: baixo risco;
- ✓4–6: risco intermediário;
- ✓7–10: alto risco.
Na validação prospectiva clássica do HEART Score, eventos cardíacos adversos maiores (MACE) em seis semanas ocorreram em aproximadamente 1,7% dos pacientes com HEART 0–3, 16,6% com HEART 4–6 e 50,1% com HEART 7–10.
Esses números precisam ser lidos com cuidado: pertencem à coorte de validação original e não representam uma probabilidade fixa aplicável a qualquer paciente individualmente. O risco observado varia conforme a população estudada, a definição de MACE utilizada, o tipo de troponina, o protocolo adotado, o tempo de acompanhamento e a prevalência de doença coronariana na coorte.
Na prática, escreva e pense: “na validação original, pacientes com HEART 0–3 apresentaram MACE em aproximadamente 1,7%” — e não “HEART 3 significa 1,7% de risco” para o seu paciente.
HEART Score 0–3 Significa que o Paciente Pode Receber Alta?
Não. Esse é talvez o equívoco mais arriscado na aplicação do escore.
Um HEART Score de 0–3 identifica uma população de menor risco em termos estatísticos, mas não é autorização automática para alta. Estudos mostram que eventos ainda podem ocorrer entre pacientes classificados como baixo risco. A decisão sobre disposição precisa integrar: história e exame físico completos, ECG, resultado e dinâmica da troponina, evolução dos sintomas durante a observação, tempo desde o início da dor, diagnósticos alternativos potencialmente graves e protocolo institucional vigente.
O julgamento clínico não é substituível por um número de 0 a 10.
HEART baixo ≠ alta automática
Um HEART Score de 0–3 indica menor risco estatístico, não ausência de risco individual. A decisão de alta exige a integração de todos os dados clínicos disponíveis e deve seguir o protocolo institucional de dor torácica — não apenas o resultado do escore.
Qual a Diferença entre HEART Score e HEART Pathway?
Os dois termos são frequentemente confundidos, e a distinção é importante para aplicar corretamente cada um.
HEART Score é a pontuação de 0 a 10 obtida pela soma dos cinco critérios. É uma ferramenta de estimativa de risco.
HEART Pathway é uma estratégia clínica mais ampla que insere o HEART Score dentro de um protocolo estruturado de avaliação e disposição de pacientes com dor torácica. O HEART Pathway original combina a pontuação com avaliação eletrocardiográfica e troponina seriada — nas medidas de 0 e 3 horas na versão original.
Essa distinção prática resume bem o conceito:
**HEART Score = ferramenta de risco.
HEART Pathway = escore inserido dentro de um protocolo de decisão clínica.**
Não apresente o intervalo de 0 e 3 horas do HEART Pathway como padrão universal atual. Com troponinas de alta sensibilidade, protocolos contemporâneos utilizam estratégias mais rápidas — como 0/1h ou 0/2h — dependendo do ensaio e do protocolo da instituição.
Como a Troponina de Alta Sensibilidade Mudou a Avaliação da Dor Torácica?
A disseminação das troponinas cardíacas de alta sensibilidade (hs-cTn) mudou o fluxo de avaliação da dor torácica na emergência. Diretrizes contemporâneas priorizam clinical decision pathways (CDPs) integrados com hs-cTn para estratificação mais rápida.
Em alguns protocolos validados, a classificação de baixo risco pode ser feita com base no quadro clínico, ECG não isquêmico e resultado e dinâmica da hs-cTn — sem que o HEART Score necessite ser calculado formalmente em todo paciente.
O HEART continua sendo uma ferramenta útil e amplamente aplicada, mas não é obrigatório em absolutamente todo caso de dor torácica. Reconhecer essa nuance é importante para não aplicar uma prática de uma década atrás em contextos onde protocolos mais recentes e validados já estão disponíveis.
Exemplo Prático: Calculando o HEART Score no Plantão
Veja como o escore funciona em um caso clínico didático.
Paciente: 52 anos, sexo masculino, com dor torácica de início há 4 horas. A apresentação é moderadamente suspeita para SCA. ECG sem alterações isquêmicas. Dois fatores de risco cardiovasculares (hipertensão e dislipidemia). Troponina dentro do limite de referência na primeira coleta.
| Critério | Pontuação | Justificativa |
|---|---|---|
| História | 1 | Moderadamente suspeita |
| ECG | 0 | Normal |
| Idade | 1 | 52 anos (45–64) |
| Fatores de risco | 1 | 2 fatores cardiovasculares |
| Troponina | 0 | Dentro do limite normal |
| Total | 3 |
HEART Score = 3 → categoria de baixo risco pela classificação clássica.
O resultado enquadra o paciente na faixa de menor risco, mas não determina sozinho a alta. É preciso considerar o tempo de evolução dos sintomas, a estratégia de troponina utilizada na instituição (incluindo coleta seriada quando indicada), o ECG, a avaliação clínica completa e o protocolo institucional de dor torácica.
HEART Score x TIMI x GRACE: Qual a Diferença?
Os três escores avaliam risco cardiovascular, mas foram desenvolvidos para contextos e objetivos distintos.
HEART Score × TIMI × GRACE: contextos de aplicação
| Escore | Contexto de desenvolvimento | Foco principal |
|---|---|---|
| HEART Score | Estratificação de dor torácica na emergência | Estimar risco de MACE em pacientes ainda sem diagnóstico definido |
| TIMI | Desenvolvido para pacientes com SCA estabelecida | Estratificação de risco em contexto de SCA confirmada |
| GRACE | Prognóstico em SCA estabelecida | Inclui parâmetros hemodinâmicos e laboratoriais; estimativa de mortalidade |
Não declare que o HEART é “melhor” que o TIMI ou o GRACE. São ferramentas com objetivos parcialmente diferentes: o HEART foi projetado para o momento em que ainda não há diagnóstico definido, enquanto o TIMI e o GRACE têm aplicação mais clara depois que a SCA já está estabelecida.
Quando Não Depender do HEART Score Isoladamente
O escore não deve atrasar a abordagem de pacientes que já apresentam sinais de gravidade:
Situações em que o HEART Score não deve guiar a conduta
Não calcule ou aguarde o HEART Score antes de agir quando o paciente apresentar: instabilidade hemodinâmica, alterações isquêmicas importantes no ECG, SCA já evidente, arritmias graves, insuficiência cardíaca aguda ou qualquer quadro clínico de alto risco. Nesses casos, a abordagem não pode ser postergada.
Além disso, dor torácica pode representar emergências não coronarianas que o HEART Score simplesmente não avalia — por não ter sido desenvolvido para isso:
- ✓dissecção aguda de aorta;
- ✓tromboembolismo pulmonar;
- ✓pneumotórax hipertensivo;
- ✓outras condições potencialmente fatais.
Um HEART Score baixo não exclui nenhum desses diagnósticos.
Como Calcular o HEART Score Rapidamente no Plantão
O HEART Score tem apenas cinco critérios, mas erros de aplicação acontecem: classificação inadequada da história clínica, contagem incorreta de fatores de risco, interpretação da troponina sem considerar o limite do ensaio local e soma incorreta dos pontos.
Ter um recurso que organize o cálculo em tempo real reduz esse risco. O CalcMed Urgência e Emergência reúne escores clínicos, calculadoras e protocolos voltados à emergência em um único aplicativo, incluindo o HEART Score entre as ferramentas disponíveis. O objetivo é centralizar os recursos que o plantonista precisa durante a avaliação do paciente com dor torácica, agilizando a organização dos critérios sem substituir o julgamento clínico.
Para outros escores clínicos usados no plantão, confira: CURB-65: Como Calcular e Interpretar o Escore de Pneumonia e qSOFA e SOFA: Como Identificar Sepse na Emergência com Escores Clínicos.
Conclusão
O HEART Score é uma ferramenta simples, validada e útil para estruturar a avaliação de risco em pacientes com dor torácica e suspeita de síndrome coronariana aguda. Ele organiza cinco critérios clínicos e laboratoriais em uma pontuação de 0 a 10 e ajuda a estimar a probabilidade de eventos adversos nas semanas seguintes.
Mas o escore é apenas parte da avaliação. O resultado sempre deve ser interpretado junto do ECG, da troponina (e sua variação seriada quando indicada), da evolução clínica do paciente e do protocolo institucional vigente. HEART baixo não significa alta automática. HEART alto não é diagnóstico. E o escore não avalia causas não coronarianas de dor torácica.
No plantão, ter os critérios organizados e o cálculo acessível faz diferença. O CalcMed Urgência e Emergência coloca o HEART Score e outros escores da emergência na palma da sua mão.
|
Seu plantão mais seguro começa aqui Acesse escores clínicos, calculadoras e protocolos atualizados no app de urgência e emergência mais usado no Brasil. |
|
Perguntas Frequentes
O que significa HEART Score?
HEART Score é uma ferramenta de estratificação de risco para pacientes atendidos na emergência com dor torácica e suspeita de síndrome coronariana aguda. A sigla corresponde aos cinco critérios avaliados: History (história), ECG, Age (idade), Risk factors (fatores de risco) e Troponin (troponina). A pontuação varia de 0 a 10 e estima o risco de eventos cardíacos adversos maiores.
HEART Score 3 é baixo risco?
Sim, segundo a classificação clássica, HEART Score de 0 a 3 corresponde à faixa de baixo risco. Na validação original, MACE em seis semanas ocorreu em aproximadamente 1,7% dos pacientes nessa faixa. Porém, esse percentual pertence à coorte de validação e não deve ser interpretado como probabilidade fixa para o paciente individual.
HEART Score baixo permite alta?
Não automaticamente. Um HEART Score de 0–3 identifica uma população estatisticamente de menor risco, mas a decisão de alta deve integrar ECG, resultado e dinâmica da troponina, evolução clínica, tempo de sintomas, diagnósticos alternativos e protocolo institucional. O escore organiza a avaliação, mas não substitui o julgamento clínico.
Qual a diferença entre HEART Score e HEART Pathway?
O HEART Score é a pontuação de 0 a 10 obtida pelos cinco critérios. O HEART Pathway é uma estratégia clínica mais ampla que insere esse escore dentro de um protocolo estruturado de avaliação, com troponina seriada. A versão original usava coletas em 0 e 3 horas, mas protocolos contemporâneos com troponina de alta sensibilidade podem adotar intervalos mais curtos.
O HEART Score exclui infarto?
Não. O HEART Score é uma ferramenta de estratificação de risco, não um teste diagnóstico. Ele não confirma nem exclui infarto ou SCA isoladamente. Além disso, não foi desenvolvido para avaliar causas não coronarianas de dor torácica, como dissecção de aorta ou tromboembolismo pulmonar — um HEART Score baixo não afasta esses diagnósticos.