Dengue: Hidratação por peso e classificação em grupos a a D

Guia prático com volumes de hidratação oral e venosa por peso nos grupos A a D da dengue, sinais de alarme e critérios de alta hospitalar.
Infográfico de hidratação na dengue por peso, com classificação em grupos A a D

Sumário

No plantão de emergência, a diferença entre um caso de dengue que evolui bem e um que descompensa muitas vezes está na hora certa de trocar de grupo e de volume. A classificação em grupos A, B, C e D, adotada pelo Ministério da Saúde, combina a triagem por cores da Política Nacional de Humanização ao estadiamento dinâmico da doença (Ministério da Saúde, 2024). Entender essa lógica evita tanto a alta precoce de um paciente que vai descompensar quanto a internação desnecessária de quem só precisa de sais de reidratação oral.

Este guia reúne os volumes de hidratação calculados por peso para cada grupo, os sinais de alarme que mudam a conduta e os critérios de alta hospitalar. Se você já usa a calculadora de dose pediátrica por peso (mg/kg) no plantão, a lógica de cálculo aqui é parecida: peso do paciente, mL/kg/dia e distribuição no tempo.

Principais conclusões

  • •A classificação tem quatro grupos: A (azul, ambulatorial), B (verde, observação), C (amarelo, internação com hidratação venosa) e D (vermelho, UTI com ressuscitação volêmica).
  • •A hidratação oral dos grupos A e B segue 60 mL/kg/dia em adultos, sendo 1/3 em soro de reidratação oral e 2/3 em líquidos caseiros.
  • •No grupo C, a expansão rápida começa com 10 mL/kg/h de cristaloide, reavaliada a cada hora e repetível até 3 vezes.
  • •No grupo D, a ressuscitação volêmica usa 20 mL/kg em até 20 minutos, com reavaliação clínica a cada 15 a 30 minutos.
  • •A alta hospitalar dos grupos C e D exige 5 critérios simultâneos, não apenas melhora clínica isolada.

Como Classificar o Paciente nos Grupos A, B, C e D?

Diagrama de fichas coloridas ilustrando os grupos de classificação de dengue de A a D

A triagem de dengue combina sinais clínicos objetivos (prova do laço, sangramento, hematócrito, sinais de choque) com fatores de risco como idade, comorbidades e gestação. Essa combinação define não só a cor da ficha, mas também onde o paciente vai ser atendido e com que exames de entrada.

Classificação de risco na dengue: critérios e conduta inicial

Grupo Cor Critério clínico principal Local de atendimento
A Azul Sem sinais de alarme, sem comorbidades descompensadas, prova do laço negativa Ambulatorial
B Verde Sangramento espontâneo de pele, prova do laço positiva ou comorbidade/risco social Leito de observação
C Amarelo Pelo menos um sinal de alarme, sem choque Internação por no mínimo 48h
D Vermelho Sinais de choque, sangramento grave ou disfunção de órgão UTI

O grupo B merece atenção redobrada porque, na prática, é o mais fácil de subestimar: não há sinal de alarme ainda, mas o paciente já tem um fator que pede retaguarda, seja uma comorbidade descompensável, idade acima de 65 anos, gestação ou lactente abaixo de 2 anos. A conduta de grupo B exige hemograma completo obrigatório e hidratação oral supervisionada na unidade, enquanto aguarda o resultado laboratorial. É esse hemograma que vai confirmar, ou descartar, a necessidade de subir para o grupo C.

Os sinais de alarme que definem o grupo C incluem dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes, acúmulo de líquidos, hipotensão postural, hepatomegalia maior que 2 cm, sangramento de mucosa, letargia ou irritabilidade e elevação do hematócrito. Basta um desses sinais, sem sinais de choque, para a internação hospitalar passar a ser obrigatória por no mínimo 48 horas. Para a diferenciação entre deterioração hemodinâmica silenciosa e choque instalado, vale a mesma lógica de raciocínio por escores que orienta o qSOFA e o escore SOFA na identificação de sepse: sinais vitais isolados enganam, a tendência ao longo do tempo não.

Qual o Volume de Hidratação Oral por Peso nos Grupos A e B?

A reposição hídrica oral deve começar o quanto antes, ser mantida durante todo o período febril e estendida por 24 a 48 horas após a queda da febre. O cálculo muda conforme o paciente é adulto ou criança, e a distribuição no tempo é tão importante quanto o volume total.

Em adultos, o volume total diário é de 60 mL/kg/dia, dividido em 1/3 de sais de reidratação oral (SRO) e 2/3 de líquidos caseiros como água, suco, água de coco e chás. Um adulto de 70 kg, por exemplo, precisa de 4.200 mL no dia: 1.400 mL (o primeiro terço) nas primeiras 4 a 6 horas de atendimento e os 2.800 mL restantes distribuídos no período seguinte.

Hidratação oral por peso: adultos e crianças

Calcule o volume total diário conforme a faixa de peso do paciente. Em adultos, use 60 mL/kg/dia; em crianças até 10 kg, use 130 mL/kg/dia. Para crianças entre 10 e 20 kg, use 100 mL/kg/dia; acima de 20 kg, 80 mL/kg/dia. Separe 1/3 do volume em SRO e 2/3 em líquidos caseiros. Ofereça o primeiro terço do volume total nas primeiras 4 a 6 horas de atendimento. Distribua os 2/3 restantes ao longo do período subsequente, monitorando aceitação e diurese.

Para crianças abaixo de 13 anos, a faixa de peso muda o mL/kg/dia: até 10 kg são 130 mL/kg/dia, de 10 a 20 kg caem para 100 mL/kg/dia, e acima de 20 kg o volume é 80 mL/kg/dia. A proporção de 1/3 em SRO e 2/3 em líquidos caseiros se mantém igual à do adulto. Fazer essa conta de cabeça no meio de um plantão corrido é onde a maioria dos erros de dose acontece, e é exatamente o tipo de cálculo que o aplicativo CalcMed Urgência e Emergência resolve em segundos, com o peso informado uma única vez.

Hidratação oral não é para todo mundo

Pacientes do grupo B com comorbidade descompensada, gestantes, idosos acima de 65 anos e lactentes abaixo de 2 anos precisam de hidratação oral supervisionada, nunca apenas orientada por telefone. O hemograma completo é obrigatório antes de liberar o paciente para casa.

Como Calcular a Hidratação Venosa do Grupo C (Com Sinais de Alarme)?

Quando o paciente apresenta sinal de alarme sem choque, a infusão parenteral de cristaloide isotônico (soro fisiológico 0,9% ou Ringer lactato) começa imediatamente, sem esperar resultado de exame. Essa é a diferença prática entre grupo B e grupo C: o primeiro espera o hemograma, o segundo não espera nada.

A fase de expansão rápida usa 10 mL/kg de soro fisiológico 0,9% na primeira hora. Depois de uma hora, reavalia-se sinais vitais, pressão arterial e débito urinário, que idealmente deve ficar igual ou acima de 1 mL/kg/h. Se a melhora não for satisfatória, mantém-se outra infusão de 10 mL/kg na segunda hora, e essa etapa de expansão pode ser repetida por até três vezes no total. Se mesmo assim não houver melhora clínica e laboratorial depois das três etapas, o paciente passa a ser conduzido como grupo D.

Uma vez estabilizado, com queda do hematócrito e melhora hemodinâmica confirmada, entra a fase de manutenção: 25 mL/kg de solução salina em 6 horas na primeira etapa, seguidos de outros 25 mL/kg em 8 horas na segunda etapa. O acompanhamento laboratorial nessa fase é tão relevante quanto o volume infundido, e é aqui que vale revisitar os parâmetros da gasometria arterial e seus valores normais para interpretar hematócrito, bicarbonato e eletrólitos sem depender só da memória.

Não espere o exame para começar a venosa

No grupo C, a infusão parenteral começa imediatamente diante de um único sinal de alarme. Esperar o resultado do hemograma, da albumina sérica ou das transaminases para iniciar a hidratação venosa atrasa a resposta exatamente na janela em que ela mais importa.

Qual a Conduta de Hidratação de Emergência no Grupo D (Choque)?

Itens de UTI ilustram o protocolo de hidratação de emergência no choque por dengue (grupo D)

O grupo D reúne os casos de dengue grave, com sinais de choque como taquicardia, extremidades frias, pulso fraco ou filiforme, enchimento capilar maior que 2 segundos, pressão arterial convergente abaixo de 20 mmHg, hipotensão e oligúria inferior a 1,5 mL/kg/h. A internação é obrigatória em UTI, com ressuscitação volêmica parenteral imediata.

A fase de expansão rápida de emergência usa cristaloide isotônico na dose de 20 mL/kg em até 20 minutos, com reavaliação clínica a cada 15 a 30 minutos e checagem do hematócrito em 2 horas. Essa etapa de 20 mL/kg pode ser repetida por até três vezes, conforme a resposta hemodinâmica do paciente. Havendo resposta adequada e reversão do choque, o paciente é reclassificado e retorna para a fase de expansão e manutenção do grupo C.

5 critérios

A alta hospitalar dos grupos C e D só é segura quando todos os cinco critérios são preenchidos ao mesmo tempo, não apenas um ou dois isolados.

Fonte: Ministério da Saúde, Protocolo de Manejo Clínico da Dengue

Quando não há resposta ao volume, o quadro é de choque refratário, e aí entram os expansores plasmáticos, como albumina na dose de 0,5 a 1 g/kg ou coloides sintéticos, além da investigação ativa de hemorragias ocultas e coagulopatia de consumo. Populações especiais, como idosos acima de 65 anos, gestantes, lactentes abaixo de 2 anos e pacientes com insuficiência cardíaca congestiva ou doença renal crônica, exigem monitoramento volumétrico mais rigoroso, pelo risco elevado de sobrecarga hídrica e edema pulmonar.

Critérios para alta hospitalar nos grupos C e D

Estabilização hemodinâmica mantida por 48 horas Ausência de febre por pelo menos 24 horas Melhora visível do quadro clínico geral Hematócrito normal e estável por 24 horas Contagem de plaquetas em elevação

Faltou simplificar esse fluxo inteiro, do peso de entrada até a conferência dos cinco critérios de alta? É basicamente o que motivou a calculadora de hidratação por dengue dentro do app CalcMed: menos tempo fazendo conta na calculadora do celular, mais tempo reavaliando o paciente.

Perguntas Frequentes

Qual o volume de hidratação oral para um adulto com dengue?

O volume recomendado é 60 mL/kg/dia, sendo 1/3 em sais de reidratação oral e 2/3 em líquidos caseiros. Um adulto de 70 kg precisa de 4.200 mL/dia, com 1.400 mL nas primeiras 4 a 6 horas. A reposição deve continuar por 24 a 48 horas após a queda da febre.

Quais são os sinais de alarme que mudam o paciente para o grupo C?

Dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes, acúmulo de líquidos, hipotensão postural, hepatomegalia maior que 2 cm, sangramento de mucosa, letargia ou irritabilidade e elevação do hematócrito. Basta um desses sinais, sem choque, para internação obrigatória com hidratação venosa imediata.

Qual a conduta do grupo B na dengue?

O grupo B reúne pacientes sem sinal de alarme, mas com sangramento espontâneo de pele, prova do laço positiva ou comorbidade e risco social. A conduta é leito de observação, hemograma completo obrigatório e hidratação oral supervisionada enquanto aguarda o resultado laboratorial.

Como calcular a hidratação pediátrica na dengue por peso?

O cálculo pediátrico usa faixas de peso: até 10 kg, 130 mL/kg/dia; de 10 a 20 kg, 100 mL/kg/dia; acima de 20 kg, 80 mL/kg/dia. A proporção se mantém em 1/3 de sais de reidratação oral e 2/3 de líquidos caseiros, com o primeiro terço nas primeiras 4 a 6 horas.

O tratamento de chikungunya segue o mesmo protocolo de hidratação da dengue?

Não exatamente. Chikungunya também exige hidratação e controle de sinais de alarme hemorrágico, mas o manejo se concentra mais em analgesia para a dor articular intensa, que costuma ser o sintoma predominante e persistente da doença, diferente do padrão de extravasamento plasmático da dengue.

Conclusão

Classificar corretamente entre os grupos A, B, C e D é o que define se a hidratação do paciente será feita em casa com SRO ou com cristaloide correndo em UTI. Os volumes por peso, a distribuição no tempo e os cinco critérios de alta hospitalar não deixam margem para “mais ou menos”: ou o paciente preenche todos, ou a alta espera.

Ter esses cálculos disponíveis no bolso do jaleco muda o ritmo do plantão. Baixe o app CalcMed Urgência e Emergência e tenha a calculadora de hidratação por peso, os escores de choque e os protocolos de dengue atualizados sempre à mão: seu plantão mais seguro começa aqui.