Paciente intubado, RASS +2, taquicárdico, puxando o tubo meia hora depois da IOT. A resposta automática de muita gente é subir o midazolam. Está errado. Na maioria dos casos, essa agitação vem da dor do tubo orotraqueal e dos procedimentos invasivos, não de ansiedade isolada, e o primeiro ajuste deveria ser na analgesia, não no hipnótico.
Essa lógica tem nome: analgossedação. A diretriz PADIS (Devlin et al., Crit Care Med, 2018) e sua atualização de 2025 (Lewis et al., Crit Care Med, 2025) recomendam controlar a dor antes de escalar sedativos, guiando a conduta por escalas validadas em vez de impressão clínica. Esta ficha reúne a diluição padronizada, a faixa terapêutica e um exemplo de cálculo em mL/h para os três fármacos mais usados na sedação contínua pós-IOT: fentanil, midazolam e dexmedetomidina (Precedex).
Principais conclusões
- •Trate a dor antes de aumentar o sedativo: a agitação pós-IOT costuma ser dor não tratada, não ansiedade.
- •Fentanil 10 mcg/mL (2 ampolas + 80 mL), faixa de 0,7 a 10,0 mcg/kg/h, é o opioide de primeira linha por estabilidade hemodinâmica.
- •Midazolam 1 mg/mL (2 ampolas + 80 mL), faixa de 0,02 a 0,10 mg/kg/h, acumula em infusão prolongada e eleva o risco de delirium.
- •Dexmedetomidina 4 mcg/mL (1 ampola + 48 mL), faixa de 0,2 a 0,7 mcg/kg/h, não deve receber dose de ataque de rotina na UTI.
- •O estudo SEDCOM (Riker et al., JAMA, 2009) mostrou 54,0% de delirium com dexmedetomidina contra 76,6% com midazolam (p < 0,001).
Por que a analgesia vem antes do sedativo

Toda titulação de sedação contínua pós-IOT começa pela dor, não pela sedação. A agitação psicomotora depois da intubação é, na maioria dos casos, consequência de dor não tratada causada pelo tubo endotraqueal e por procedimentos invasivos, e a conduta atual prioriza o controle efetivo dessa dor antes de iniciar ou elevar sedativos hipnóticos.
A avaliação sistemática usa escalas validadas, não achismo de plantão. A dor é medida pela Behavioral Pain Scale (BPS, meta menor ou igual a 5) ou pela Critical-Care Pain Observation Tool (CPOT, meta menor ou igual a 2) em pacientes que não conseguem se comunicar verbalmente. A profundidade da sedação é medida pela Richmond Agitation-Sedation Scale (RASS).
Meta de RASS importa mais que a dose
Para a maioria dos pacientes em ventilação mecânica invasiva, a meta é sedação leve, RASS entre -2 e +1, porque facilita o desmame ventilatório e reduz a incidência de delirium. Sedação profunda, RASS -4 a -5, fica reservada para SDRA grave, assincronia refratária sob bloqueio neuromuscular ou hipertensão intracraniana.
Na prática, isso muda a ordem das decisões no plantão. Antes de pedir aumento de midazolam na prescrição, vale checar o BPS ou o CPOT do paciente e, se a dor estiver fora da meta, ajustar o fentanil primeiro. É aqui que uma calculadora como a CalcMed Urgência e Emergência ajuda: ela cruza peso, dose prescrita e concentração final em segundos, sem precisar refazer a conta na calculadora do celular no meio da corrida.
Diluição e cálculo de fentanil, o opioide de primeira linha
Fentanil é um agonista opioide mu puro, com início de ação de 1 a 2 minutos e meia-vida plasmática de 2 a 4 horas, mas acumula de forma marcante em infusões contínuas acima de 48 horas. Seus metabólitos são inativos, o que favorece estabilidade hemodinâmica relativa frente a outras opções.
A apresentação padrão é ampola de 500 mcg em 10 mL, equivalente a 50 mcg/mL. A diluição padronizada usa 2 ampolas, 20 mL, totalizando 1.000 mcg, mais 80 mL de soro fisiológico 0,9% ou glicosado 5%, chegando a volume total de 100 mL e concentração final de 10 mcg/mL. A faixa terapêutica em infusão contínua vai de 0,7 a 10,0 mcg/kg/h.
Fórmula geral de infusão em bomba
Vazão (mL/h) = Dose Prescrita (mcg/kg/h ou mg/kg/h) × Peso do Paciente (kg) ÷ Concentração Final da Solução (mcg/mL ou mg/mL).
Para um paciente de 70 kg a 1,0 mcg/kg/h de fentanil: dose horária de 70 mcg/h, dividida pela concentração de 10 mcg/mL, resulta em 7,0 mL/h na bomba.
Em disfunção renal, a dose deve ser reduzida para 75% se o clearance de creatinina estiver entre 10 e 50 mL/min, e para 50% se for menor que 10 mL/min. Em disfunção hepática, a titulação precisa ser cautelosa pela depuração reduzida. Em obesidade com sobrepeso acima de 20% a 30%, o cálculo deve usar o peso ideal, não o peso real.
Midazolam: diluição padrão e o risco de acúmulo
Midazolam é um agonista benzodiazepínico GABA-A, com início de ação de 2 a 5 minutos e meia-vida plasmática de 2 a 11 horas. Diferente do fentanil, seu metabólito 1-hidroximidazolam é ativo e tem eliminação renal, o que explica o acúmulo em infusões prolongadas e o risco elevado de delirium associado ao fármaco.
A apresentação é ampola de 50 mg em 10 mL, ou 5 mg/mL. A diluição padronizada usa 2 ampolas, 20 mL, totalizando 100 mg, mais 80 mL de soro fisiológico ou glicosado, chegando a 100 mL de volume total e concentração final de 1 mg/mL. A faixa terapêutica vai de 0,02 a 0,10 mg/kg/h, podendo chegar a 0,03 a 0,20 mg/kg/h em esquemas intensivos sob supervisão rigorosa.
Para um paciente de 70 kg a 0,05 mg/kg/h: dose horária de 3,5 mg/h, dividida pela concentração de 1 mg/mL, resulta em 3,5 mL/h na bomba. O mesmo raciocínio da fórmula geral de infusão se aplica, só muda a unidade.
Midazolam também causa hipotensão por vasodilatação e depressão miocárdica, além de acumular em adipócitos. Em disfunção renal e hepática, a redução de dose precisa ser substancial, não apenas um ajuste fino, pela depuração lentificada do metabólito ativo. Em obesidade, a titulação deve ser rigorosa, dado o alto acúmulo em tecido adiposo.
Perfil farmacológico comparado
| Fármaco | Início de ação | Meia-vida | Metabólito ativo | Principal risco |
|---|---|---|---|---|
| Fentanil | 1-2 min | 2-4 h | Não (norfentanila inativa) | Acúmulo em infusão > 48h |
| Midazolam | 2-5 min | 2-11 h | Sim (1-hidroximidazolam) | Hipotensão, delirium |
| Dexmedetomidina | 5-15 min | 1,8-3,1 h | Não | Bradicardia, hipotensão |
Precedex (dexmedetomidina): a opção sem dose de ataque
Dexmedetomidina, comercializada como Precedex, é um agonista alfa-2-adrenérgico seletivo, com início de ação de 5 a 15 minutos e meia-vida plasmática curta, de 1,8 a 3,1 horas. Seus metabólitos são inativos. A grande diferença clínica é a sedação cooperativa sem depressão respiratória direta, o que permite avaliar o paciente acordado e colaborativo.
A apresentação é ampola de 200 mcg em 2 mL, ou 100 mcg/mL. A diluição padronizada usa 1 ampola, 2 mL, totalizando 200 mcg, mais 48 mL de soro fisiológico ou glicosado, chegando a 50 mL de volume total e concentração final de 4 mcg/mL. A faixa terapêutica vai de 0,2 a 0,7 mcg/kg/h, já estudada até 1,4 mcg/kg/h em ventilação mecânica invasiva.
Para um paciente de 70 kg a 0,4 mcg/kg/h: dose horária de 28 mcg/h, dividida pela concentração de 4 mcg/mL, resulta em 7,0 mL/h na bomba.
Dose de ataque é contraindicada na UTI
Diferente do uso em centro cirúrgico, a dose de ataque (loading dose) de rotina de dexmedetomidina é contraindicada no ambiente de UTI, porque aumenta o risco de bradicardia grave e colapso hemodinâmico. Inicie direto na infusão de manutenção e titule conforme a resposta clínica.
Dexmedetomidina causa bradicardia e hipotensão por simpatólise, então monitorização de frequência cardíaca é obrigatória. Em disfunção renal, não há necessidade de ajuste de dose inicial. Em disfunção hepática, a redução precisa ser acentuada, pelo menor clearance hepático. Em obesidade, a conduta é titular conforme resposta, sem fórmula de correção específica.
O que a evidência mostra na troca de midazolam por dexmedetomidina

54,0% vs. 76,6%
No estudo SEDCOM, a incidência de delirium foi de 54,0% no grupo dexmedetomidina contra 76,6% no grupo midazolam (p < 0,001), com tempo equivalente na meta de sedação RASS -2 a +1 (75% vs. 75%) e extubação mais rápida, 3,7 contra 5,6 dias (p = 0,01).
Fonte: SEDCOM, Riker et al., JAMA, 2009
Os estudos MIDEX e PRODEX (Jakob et al., JAMA, 2012) confirmaram a não inferioridade da dexmedetomidina frente a midazolam e propofol na sedação leve a moderada. No braço MIDEX, o tempo de suporte ventilatório caiu em aproximadamente 41 horas comparado ao midazolam, um ganho relevante quando se pensa em desfechos de UTI além da dose em si.
Essa evidência sustenta um protocolo específico de transição, porque parar o midazolam de forma abrupta pode desencadear síndrome de abstinência e tempestade simpática:
Transição de midazolam para dexmedetomidina
Inicie a dexmedetomidina em infusão de manutenção, sem dose de ataque. Mantenha o midazolam em paralelo nas primeiras horas, sem suspender de uma vez. Reduza o midazolam de forma regressiva, em etapas, conforme a RASS se mantém na meta. Monitore frequência cardíaca e pressão arterial a cada redução, pelo risco de bradicardia da dexmedetomidina. Suspenda o midazolam somente quando a dexmedetomidina sozinha sustentar a meta de sedação.
Na prática do plantão, essa titulação em três fármacos ao mesmo tempo, cada um com concentração e faixa terapêutica diferentes, é onde mais se erra conta de mL/h sob pressão de tempo. Ter os três cálculos já prontos no app CalcMed Urgência e Emergência evita o erro de dedo na calculadora do bolso, principalmente na troca de fármaco no meio da noite.
Para quem já usa escalas de gravidade na mesma admissão, vale revisar também o qSOFA e o escore SOFA para identificar sepse na emergência e os parâmetros da gasometria arterial em tabela de valores normais, já que o paciente sedado em VMI costuma precisar dos dois ao longo da internação.
Perguntas frequentes sobre diluição de midazolam e fentanil
Qual a diluição padrão de fentanil para infusão contínua?
A diluição padronizada é 2 ampolas de 500 mcg/10 mL, totalizando 1.000 mcg, mais 80 mL de soro fisiológico ou glicosado 5%, em volume final de 100 mL. Isso dá concentração final de 10 mcg/mL, usada na faixa terapêutica de 0,7 a 10,0 mcg/kg/h.
Por que o midazolam acumula mais que o fentanil em infusão prolongada?
O midazolam tem metabólito ativo, o 1-hidroximidazolam, com eliminação renal e acúmulo em tecido adiposo. O fentanil gera norfentanila, metabólito inativo. Por isso o midazolam exige redução de dose mais acentuada em disfunção renal, hepática e em infusões além de 48 horas.
Precedex pode receber dose de ataque na UTI?
Não como rotina. A dose de ataque (loading dose) é contraindicada no ambiente de UTI porque aumenta o risco de bradicardia grave e colapso hemodinâmico. O correto é iniciar direto na infusão de manutenção, entre 0,2 e 0,7 mcg/kg/h, e titular pela resposta clínica.
Dexmedetomidina reduz mesmo o delirium comparada ao midazolam?
Sim, segundo o estudo SEDCOM (Riker et al., JAMA, 2009), a incidência de delirium foi de 54,0% com dexmedetomidina contra 76,6% com midazolam (p < 0,001), com extubação mais rápida, 3,7 contra 5,6 dias. Os estudos MIDEX e PRODEX confirmaram a não inferioridade na sedação leve a moderada.
Como calcular a vazão em mL/h de forma rápida no plantão?
Use a fórmula geral: vazão em mL/h igual à dose prescrita em mcg/kg/h ou mg/kg/h, multiplicada pelo peso do paciente em kg, dividida pela concentração final da solução. Para evitar erro de conta sob pressão, calculadoras como a CalcMed Urgência e Emergência fazem essa divisão automaticamente a partir do peso e da dose.
Conclusão
Sedação contínua pós-IOT não é escolher um fármaco e subir a dose até o paciente parar de se mexer. É avaliar dor pelo BPS ou CPOT, mirar RASS -2 a +1 na maioria dos casos, e usar fentanil, midazolam ou dexmedetomidina conforme o perfil hemodinâmico e o tempo esperado de ventilação mecânica. A diluição padronizada de cada um, 10 mcg/mL para fentanil, 1 mg/mL para midazolam e 4 mcg/mL para dexmedetomidina, é o ponto de partida; o cálculo pelo peso do paciente fecha a conta.
Para quem já usa calculadora de diluição pediátrica em mL ou revisa os melhores apps de calculadora de medicação em 2026, vale levar essa mesma lógica para a sedação contínua: menos conta de cabeça, menos risco de erro de vazão na bomba. Seu plantão mais seguro começa aqui. Baixe a CalcMed agora.