Quase metade das internações que entram pelo pronto-socorro começa com uma queixa de dor torácica, e a decisão tomada nos primeiros dez minutos pesa no desfecho do paciente. Em 2026, o protocolo de dor torácica deixou de usar o termo “dor atípica”, considerado impreciso demais e associado a subdiagnóstico de infarto. A queixa passou a ser classificada em três categorias descritivas: cardíaca, possivelmente cardíaca e não cardíaca. Ela representa cerca de 5% dos atendimentos de emergência e até 40% das internações via PS, mas apenas 5% a 20% dos casos confirmam Síndrome Coronariana Aguda (SCA). Este guia organiza o fluxo atualizado de triagem, troponina de alta sensibilidade e o escore HEART, a ferramenta que concentra a decisão de internar ou liberar.
Principais conclusões
- •O termo “dor atípica” foi abandonado; a classificação atual é cardíaca, possivelmente cardíaca ou não cardíaca.
- •A meta porta-ECG é de até 10 minutos, com monitorização, oxigênio só se SpO2 abaixo de 90%, acesso venoso e ECG (MOVE).
- •O algoritmo de troponina de alta sensibilidade 0/1h substitui o esquema antigo de 0h/3h e chega a VPN acima de 99% na zona de descarte.
- •O escore HEART é a ferramenta preferencial de estratificação, com maior acurácia que TIMI, GRACE e ADAPT em coortes nacionais.
- •Seis diagnósticos diferenciais fatais precisam ser descartados ativamente: SCA, síndrome aórtica aguda, TEP, pneumotórax hipertensivo, tamponamento cardíaco e síndrome de Boerhaave.
Por que o protocolo de dor torácica mudou em 2026?

A mudança central é semântica, mas tem peso clínico real: “dor atípica” foi descontinuada por imprecisão e pelo risco de induzir o médico a descartar infarto cedo demais. No lugar entram três rótulos descritivos, que orientam a investigação sem pressupor origem. Isso muda a conversa na beira do leito?
A dor torácica cardíaca reúne o quadro isquêmico típico, com característica, irradiação e fatores desencadeantes clássicos. A possivelmente cardíaca inclui apresentações atípicas, mas com plausibilidade clínica suficiente para investigação completa, como em idosos, diabéticos e mulheres, grupos historicamente subdiagnosticados. A não cardíaca fecha a categorização quando a história e os exames iniciais afastam causa isquêmica com segurança.
A epidemiologia não deixa margem para atalho
Apesar de representar só 5% a 20% de confirmação de SCA entre todos os atendimentos por dor torácica, essa queixa responde por até 40% das internações via pronto-socorro. O protocolo existe justamente para não internar demais nem liberar de menos.
Na prática, essa reclassificação reforça que toda dor torácica entra no mesmo fluxo inicial, independentemente de “parecer” cardíaca à primeira vista. A triagem decide a velocidade; o exame clínico e os exames complementares decidem o destino.
Como funciona a conduta inicial MOVE na dor torácica?
A conduta inicial segue o acrônimo MOVE, aplicado em paralelo à triagem, nunca em sequência. Pacientes que preenchem critério para protocolo de dor torácica recebem prioridade máxima nos sistemas de triagem, código vermelho ou laranja no Protocolo de Manchester, e a meta porta-ECG é de até 10 minutos entre a chegada e a interpretação médica do traçado de 12 derivações.
Acrônimo MOVE na dor torácica
Monitorização cardíaca contínua, com desfibrilador prontamente disponível. Oxigenioterapia apenas se SpO2 abaixo de 90% ou desconforto respiratório evidente. Veia: acesso venoso periférico e coleta imediata de exames laboratoriais. Eletrocardiograma em até 10 minutos, com avaliação médica simultânea.
Vale notar que oxigênio deixou de ser automático: hiperoxia em paciente saturando bem não traz benefício e pode até prejudicar. O ECG, por sua vez, não serve só para procurar supra de ST. Alterações como bloqueios novos, infra difuso ou sinais de sobrecarga também mudam a conduta, da mesma forma que o reconhecimento rápido de alterações eletrocardiográficas de emergência, como a hipercalemia, muda o rumo de outro atendimento grave. O ECG seriado continua indicado quando o primeiro traçado é inconclusivo e a suspeita clínica permanece alta.
Quando usar o algoritmo de troponina de alta sensibilidade 0/1h?
As troponinas cardíacas de alta sensibilidade, hs-cTnI e hs-cTnT, são o biomarcador de escolha pelo elevado valor preditivo negativo e pela precisão analítica superior às troponinas convencionais. O protocolo de dor torácica 2026 recomenda o algoritmo acelerado de 0/1 hora como preferencial, com o de 0/2 horas como alternativa, substituindo de vez o antigo esquema de 0h e 3h.
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>99% Na zona de descarte (rule-out) do algoritmo 0/1h, o valor preditivo negativo e a sensibilidade para infarto sem supra de ST ultrapassam 99%, permitindo liberação segura em uma hora. Fonte: European Society of Cardiology, diretriz NSTE-ACS, 2020 |
Entre o descarte e a confirmação existe a zona de observação, onde ficam de 12% a 20% dos atendimentos, com prevalência de infarto variando entre 5% e 20% nesse subgrupo. É aqui que a maioria dos plantões trava: o paciente não está liberado nem internado, e cada hora de espera custa leito.
CK-MB e troponina convencional perderam espaço
A dosagem de CK-MB é contraindicada quando há troponina de alta sensibilidade disponível, por redundância diagnóstica. Já a troponina convencional só deve ser usada na ausência de hs-cTn, exigindo coletas seriadas a cada 3 horas e janela observacional de 6 a 12 horas, bem mais lenta que o algoritmo acelerado.
Como calcular e interpretar o escore HEART na dor torácica?
O escore HEART é a ferramenta recomendada pelas diretrizes nacionais para estratificar risco na dor torácica, com maior acurácia e validação em coortes brasileiras do que TIMI, GRACE ou ADAPT, segundo diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Ele avalia cinco domínios, História, ECG, Idade, Fatores de risco e Troponina, somando de 0 a 10 pontos.
Estratificação de risco pelo escore HEART
| Faixa de risco | Pontuação | Risco de MACE em 6 semanas | Conduta recomendada |
|---|---|---|---|
| Baixo risco | 0 a 3 pontos | 1,7% a 2,5% | Alta hospitalar segura, se troponina e ECG normais |
| Risco intermediário | 4 a 6 pontos | 12% a 20% | Observação em UDT e investigação não invasiva |
| Alto risco | 7 a 10 pontos | Acima de 50% | Internação intensiva e avaliação invasiva precoce |
Existe uma alternativa, o escore EDACS-ADP, que identifica uma fatia maior de pacientes de baixo risco, entre 45% e 58%. Ainda assim, o HEART mantém sensibilidade mais consistente, próxima de 100%, e maior área sob a curva ROC. Na prática do plantão, o app CalcMed já traz o cálculo do escore HEART pronto, cruzando história, ECG, idade, fatores de risco e troponina automaticamente, o que evita erro de soma manual sob pressão de corredor cheio.
Quais diagnósticos diferenciais fatais não podem ser perdidos?
Além da SCA, o protocolo de dor torácica exige descartar ativamente mais cinco emergências com risco de morte iminente: síndrome aórtica aguda, tromboembolismo pulmonar (TEP), pneumotórax hipertensivo, tamponamento cardíaco e ruptura esofágica, a síndrome de Boerhaave. Esquecer uma dessas seis hipóteses é o erro mais caro do atendimento, porque o paciente pode estar estável na triagem e descompensar minutos depois.
Para síndrome aórtica aguda, a estratificação pré-teste usa o escore ADD-RS combinado ao D-dímero e à angiotomografia de aorta ou ecocardiograma transesofágico. Para TEP, os escores de Wells ou Genebra guiam a probabilidade pré-teste; em risco baixo ou intermediário, o D-dímero entra com ponto de corte de 500 ng/mL, ou ajustado pela idade a partir dos 50 anos.
A zona intermediária exige exame de imagem, não só espera
A angiotomografia de coronárias tem valor preditivo negativo próximo de 100% em pacientes de risco baixo ou intermediário sem doença coronariana conhecida. Ecocardiograma de repouso ou POCUS avaliam motilidade parietal e derrame pericárdico de imediato, e a gasometria arterial segue sendo peça central para avaliar oxigenação e perfusão nesse mesmo paciente, como detalhamos no [guia completo de interpretação da gasometria arterial](https://calcmed.com.br/gasometria-arterial-guia-completo-de-interpretacao-para-plantonistas/).
Ressonância magnética cardíaca entra em um cenário mais específico: troponina elevada sem lesão coronariana obstrutiva, o chamado MINOCA. Não é exame de rotina no PS, mas conhecer a indicação evita pedido desnecessário e evita também fechar o caso como “sem causa” antes da hora.
Como as Unidades de Dor Torácica melhoram os indicadores de qualidade?

A Unidade de Dor Torácica (UDT) reduz internações inadequadas e pode gerar economia de 20% a 25% nos custos assistenciais, segundo revisões sobre esse modelo de cuidado. Ela funciona como ponte entre o risco intermediário do escore HEART e a alta segura, concentrando reavaliação clínica, ECG seriado e exame de imagem em um fluxo curto e monitorado.
Os principais indicadores de qualidade giram em torno de tempo: porta-ECG em até 10 minutos, porta-balão em até 90 minutos para angioplastia primária e porta-agulha em até 30 minutos para fibrinólise. Taxa de prescrição de AAS e dupla antiagregação na admissão, além de estatina de alta intensidade na alta hospitalar, completam o painel. Nenhum desses indicadores sobrevive a uma passagem de plantão malfeita, e é por isso que a continuidade do cuidado em UDT depende tanto do registro quanto do passo a passo de handover estruturado entre equipes.
Vale perguntar: sua UDT mede esses tempos hoje, ou só percebe o atraso quando o paciente de alto risco já perdeu a janela da angioplastia?
Ferramentas de apoio à decisão ajudam a sustentar esses indicadores sob pressão. É nesse ponto que calculadoras clínicas e apps de protocolo fazem diferença prática: desde planilhas improvisadas até aplicativos especializados em cálculo de prescrição, passando por apps clínicos como a CalcMed, que reúnem HEART, troponina e protocolos atualizados em um único lugar, a escolha da ferramenta afeta diretamente o tempo porta-ECG e a consistência da estratificação de risco entre plantonistas diferentes.
Conclusão
O protocolo de dor torácica 2026 troca imprecisão por categoria descritiva, acelera a troponina com o algoritmo 0/1h e concentra a decisão de internar ou liberar no escore HEART. Os seis diagnósticos diferenciais fatais continuam exigindo descarte ativo, não suposição. Quem mede porta-ECG, porta-balão e porta-agulha de forma sistemática, com apoio de ferramentas clínicas confiáveis, reduz o tempo de decisão sem abrir mão de segurança. Baixe o app CalcMed e tenha o protocolo de dor torácica, o escore HEART e o algoritmo de troponina sempre à mão no seu plantão.
Perguntas frequentes
O que mudou no protocolo de dor torácica em 2026?
O termo “dor atípica” foi abandonado por imprecisão clínica. A classificação atual usa três categorias descritivas, cardíaca, possivelmente cardíaca e não cardíaca, e reforça o algoritmo de troponina 0/1h no lugar do antigo esquema de 0h e 3h, tornando a decisão de alta ou internação mais rápida e padronizada.
Quando usar o algoritmo de troponina de alta sensibilidade 0/1h?
Use o algoritmo 0/1h sempre que a troponina de alta sensibilidade estiver disponível, coletando a amostra basal e repetindo em uma hora. A zona de descarte tem VPN acima de 99% para infarto sem supra de ST, permitindo liberação segura quando não há variação significativa entre as coletas.
Como interpretar o escore HEART na dor torácica?
O escore soma de 0 a 10 pontos em cinco domínios: história, ECG, idade, fatores de risco e troponina. De 0 a 3 pontos é baixo risco, com MACE entre 1,7% e 2,5%; de 4 a 6, risco intermediário, que exige observação em UDT; de 7 a 10, alto risco, com indicação de internação intensiva.
CK-MB ainda deve ser solicitado na dor torácica?
Não, quando há troponina de alta sensibilidade disponível. A dosagem de CK-MB é considerada contraindicada nesse cenário por redundância diagnóstica, já que a troponina de alta sensibilidade tem precisão analítica e valor preditivo superiores para detectar lesão miocárdica aguda.
Quais ferramentas ajudam a calcular o escore HEART e o algoritmo de troponina no plantão?
Existem desde calculadoras genéricas online até apps clínicos especializados em protocolos de urgência, como a CalcMed, que reúnem escore HEART, algoritmo de troponina e os seis diagnósticos diferenciais fatais em um único fluxo, reduzindo o risco de erro de soma manual durante o atendimento.